23 de fevereiro de 2016

um peixe

Eu tenho alimentado o peixe há alguns meses.

Ele nao come muito. 

O habito dele é vir correndo (nadando) até a superfície e comer os flocos de ração de peixe que eu jogo na água. Ração de peixe é uma coisa meio engraçada. 

Sempre acho que estou pondo ração demais pra um peixe só. Mas eu não faço ideia, na verdade, de quanto um peixe precisa comer. 

---

ele nem sempre foi um peixe solitário. Ele fazia parte de um bando. uma gangue. um cardume. 
mas o resto do cardume morreu. 

não sei, também, quando isso aconteceu. quando voltei pra casa um dia, ele estava sozinho. nadando. sem expressão. 

---
o problema dos peixes é que eles não são muito expressivos mesmo na melhor das situações. não sabemos quando eles querem dizer alguma coisa.

---

acho que quando eu não estou em casa, o peixe não come quase nada, porque o pote de ração sempre está exatamente onde eu o deixei. ninguém mexeu. ninguém tirou do lugar.

eu sempre deixo o pote na mesma posição, pra que eu possa saber se alguém moveu o pote. a poeira se acumula consistentemente em torno dele. 

---

ele é um sobrevivente. ele passou por meses, anos até, de negligencia. os outros peixes sempre morrem, e um paulistinha sempre sobra, solitário, dando voltas sem rumo dentro do aquário. o que será que ele pensa?

---

eu estou contando essa história na verdade porque o fato é que o peixe morreu. 

eu continuo o alimentando, contudo.

---

ração de peixe é engraçada. parece uma especie de confete, infinitos flocos fininhos, fininhos mais que folhas, mais que papel. como é que eles produzem isso?

---

quer dizer, não podemos ter certeza que o peixe está morto. o fato de ele não aparecer mais pode significar outras coisas. talvez ele esteja visitando algum parente, ou num retiro espiritual.

talvez ele esteja deprimido. talvez ele não tenha mais motivação pra sair de debaixo de uma pedra qualquer no fundo do aquário. 

talvez ele tenha entrado numa greve de fome, até os seus irmãos deixarem de ser assassinados no pantanal.

talvez seja a piracema.

---

a comida de peixe flutua pelo aquário, intocada, sendo movida pelas ondas causadas pelo filtro de ar.

---

quer dizer, o peixe estava passando fome. estava sendo completamente negligenciado. então eu comecei a alimenta-lo regularmente. eu salvei esse peixe. por que foi que ele resolveu morrer justo agora? porque ele me deixou cuidar dele, antes de morrer?

---

quando peixes morrem, suas pequenas carcaçinhas sobem para a superficie do aquario, e entao nos as recolhemos com pequenas redinhas e jogamos fora. 

não achei nenhum cadáver flutuando no aquário.

mais evidencia de que ele deve estar por ai, talvez viciado num novo videogame ou sei lá. 

talvez eu devesse contratar um detetive particular.

---

é uma ingratidão me deixar agora que eu estava habituada a sua presença. sera a minha companhia tao repulsiva que ele apenas não conseguiu pensar num jeito de me dispensar gentilmente? foi alguma coisa que eu disse?

---

não posso deixar de alimentar o peixe.

---

talvez ele só precise de um tempo. pra esfriar a cabeça


--- 

esse peixe viu todos os seus amigos morrerem. os outros peixes talvez ainda nadassem ali, pequenos fantasmas do passado. 

dia apos dia, nadando, sem ter o que fazer pra ocupar a cabeça.

se algum peixe já teve motivos para sofrer de transtorno-de-stress-pós-traumático.

o que será que ele diria, se pudesse falar?

---

vou continuar jogando comida, por via das dúvidas.

1 comentários:

... disse...

Caralho, adorei esse texto!
Apesar de ter me dado uma certa angústia - uma vontade de chorar? devo estar sensível -, eu simplesmente pude sentir a Natalia Gruber contando, o seu humor peculiar, o seu jeito genial de olhar pras coisas. Sensacional.
Beijos, a amiga que sabe (nada) das coisas <3

Postar um comentário

 
Ir ao Topo Ir ao Fundo