4 de janeiro de 2016

quanto mais línguas melhor

É o que um professor meu costumava falar de tempos em tempos, o que estava escrito no cartaz que ele colocava pelos quadros de avisos da faculdade, informando os horários das aulas de grego e latim. Primeiro eu achava engraçado, depois indiferente, e agora saudades. Só que saudades não chega a ser a palavra certa. 

É quase uma inveja do passado recente, quase ontem, mas que também é de muitos anos atrás, porque em parte eu vinha vivendo esse ano como se fosse um outro, um ano em que tudo começou bem e depois desandou sem motivo aparente, e me deixou perdida por meses demais, até eu nem saber onde recomeçar, onde foi que deu errado. 

Eu nunca cheguei a realmente recuperar nada, porque não se pode nunca recuperar tempo perdido, essa é uma expressão idiota. O tempo se foi, e mesmo que algum dia os anos nos quais me perdi não importarem mais, a lembrança sempre vai permanecer. 

Então eu tentei retomar a vida do último ponto em que as coisas estiveram boas, com medo, o tempo todo, de aquilo que deu errado antes desse de novo. Com medo de não conseguir me apegar, de não conseguir me encontrar, de continuar à deriva. Medo de a deriva ser parte permanente de mim.

Uma das coisas que me manteve no caminho, que me serviu de salva vidas e de bussola, um cais para amarrar o barquinho (estou piegas porque são 6 da manhã), foram as aulas de latim. Antigamente, esse mesmo professor que me deu latim agora me deu aula de grego. Não sei se eu era particularmente competente, porque naquela época eu sempre me achava competente, e agora sempre me acho incompetente, então não sei qual o melhor padrão para comparar, mas mesmo com todo um alfabeto para aprender e o medo de pronunciar tudo errado, eu adorava estudar grego. 

Eu não tinha nenhuma intenção em particular de fazer nada com o que eu estava aprendendo, eu nem sabia se dava para fazer qualquer coisa com aquilo, mas aquelas aulas eram quase relaxantes. Quando frequentar a faculdade começou a se tornar mais e mais difícil, grego foi a última a ser abandonada, e a única que eu me senti realmente mal mesmo anos depois. 

Nesse ano não tinha nenhuma turma iniciando grego, e eu não tinha certeza se ia gostar de latim como tinha gostado de grego, mas o cartaz estava lá, quanto mais liguas melhor, e eu me matriculei. 

Eu não posso explicar, e acredite, eu tentei, mas ficar repetindo listas de palavras infinitamente e não aprendendo elas direito (estou falando com você, terceira declinação) é uma das coisas mais calmantes que eu descobri esse ano. Eu ainda me pego rabiscando meu nome (e o nome de todo mundo, na verdade) como se fosse um substantivo latino qualquer. Natalia, Nataliam, Nataliae...

Incerta com o rumo da minha vida, o que mais me faz falta são as aulas de linguas clássicas, e eu imagino que elas estão acontecendo neste momento, sem mim, e quero voltar correndo. Tenho minhas apostilas, tenho meus cadernos, mas era lá que eu queria estar. Errando várias palavras, rindo, e imaginando se meu professor também percebe que eu tenho algum dano cerebral. 

Isso que era vida.

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