2 de janeiro de 2016

Batom e Piriguetes

Eu e minha família celebramos a entrada do novo ano com amigos e amigos de amigos na casa de uma amiga nossa. Pessoas conhecidas, pessoas mais ou conhecidas e pessoas completamente estranhas reunidas por um ele comum, etc.

Uma das famílias presentes que já conhecemos à algum tempo, apesar de sem proximidade, era composta por Mãe, Pai, FilhoMaisVelho, FilhoMaisNovo e FilhinhaCaçula. A Mãe elogiou meu batom roxo escuro, eu emprestei para ela, e ela passou também. Mais uma interação social bem sucedida.

Daqui a pouco a FilhinhaCaçula vem brincar no colo da Mãe, e fica meio encantada com o batom. Ela tem quatro anos de idade. A Mãe aponta pra mim, e eu venho de onde estava antes pra brincar um pouco com a menina. Pergunto se ela quer passar também. Tenho um pouco de receio, em seguida, mas a Mãe não demonstra a menor oposição, então passo o batom na menininha. Agora somos três mulheres de roxo. Ela fica super feliz e eu levo ela pra se olhar no espelho. Fazemos umas caras e bocas e eu levo ela de volta pra mãe dela.

No caminho, um cara que eu não conhecia, mas conhecia a FilhinhaCaçula e família, brincou com ela, falou do batom e chamou ela "mini-piriguete".

...

Ela é ainda muito novinha para entender ou sequer registrar o que isso significa, que usar maquiagem vai fazer com que ela seja julgada e constrangida e acusada de promiscuidade. Porque ela tem quatro anos. Quatro anos, e já tem gente chamando de piriguete. Ela é muito nova para saber que ela vai continuar ouvindo esse tipo de coisa pelo resto da vida, muito nova para entender.

Ela deveria ser protegida. Alguém deveria dizer pra esse babaca pra enfiar a opinião dele no cu, mas ninguém disse nada disso. Ninguém prestou atenção, e quando eu a levei de volta pra mãe, eu também não disse nada. 

Depois de um ano que teve #primeiroassedio e #meuamigosecreto não há nada realmente novo nessa história. Todas lemos sobre coisas piores, muitas passamos por coisas piores, mas ainda é revoltante para mim que isso aconteça de maneira tão casual.

A cara da promiscuidade - uma menininha de batom, rindo. Eu estou tão cansada de ver esse tipo de coisa, eu já não sei o que dizer. Parece que não importa quanta manifestação, quanto protesto, projeto de lei, textão de feminista chata, nada consegue permear certas pessoas. Eu sei que não podemos desistir, que devemos acreditar e continuar tentando, lutando contra nossa Sociedade Machista™, e não desanimar jamais, mas oh, como cansa.

Um feliz ano novo e menos preconceitos velhos, por favor.

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