8 de julho de 2013

Quem vai me redimir?


Parei de tomar coca-cola.
No começo, era dificil.
Eu me sentia perdida. Uma vida de hábito. Você não percebe o quanto algo faz parte da sua vida até você cortar.
Mas eu cortei.
Uma vez, depois de subir uma duzia de ladeiras dessa Ouro Preto, eu só queria uma água. Finalmente, cheguei numa lanchonete. Só tinha água da Coca-cola. Não bebi. Eu podia ter bebido. Ninguém saberia. Ninguém me censuraria se soubesse. Eu não tinha outras opções, afinal. Mas não bebi. Que importa minha sede, tem gente morrendo em algum lugar. Me senti bem por passar sede.

Me tornei feminista.
No começo, eu só via o machismo dos outros.
Uma vida de hábito. Olhar pra dentro é difícil.
Mas eu olhei.
E um belo dia, eu vi uma garota gorda usando uma roupa que não cobria muito do corpo dela. Eu mentalizei alguma coisa como "meu deus ela não tem vergonha de andar assim?", e em seguida me senti horrível. Do que é que a menina devia ter vergonha? Ela não é gente como todos, não pode se vestir como bem entende, como todos? Eu é que devia me envergonhar por julgar alguém assim. Ninguém ouve meus pensamentos. Ninguém poderia me recriminar por pensar alguma coisa. Mas eu me importei assim mesmo. Me senti bem por me censurar.

Me revoltei com a homofobia.
O racismo.
A violência.
A fome.
A guerra.

Tudo aquilo que a sociedade deixa acontecer por não fazer nada.
Todos somos culpados.
Eu sou culpada.

Cada vez que eu me censurava, me privava de alguma coisa, me sentia mal por algo, isso me causava uma inconsciente satisfação.

Eu sentia prazer em me sentir mal.

Minha revolta se tornou mais violenta, mais agressiva. Eu queria me sentir pior, pra me sentir melhor. Tudo foi ficando mais pesado, mais difícil de carregar. Mas eu usava isso como uma armadura. Eu me isolei nisso, curtindo minha culpa.

A culpa era minha medalha de honra ao mérito.

Resolvi fazer uma tatuagem enorme no peito: "Quem vai nos redimir?". A idéia me deixava extasiada. Finalmente externar a culpa que eu sentia por viver.

Então eu conheci meu publicitário (analistas são muito caros). E nós conversamos. E conversamos. E conversamos. Conversamos muito. E depois eu passei uns 3 dias sozinha, pensando.

E só então eu percebi essa culpa toda sobre os meus ombros. E me perguntei porque é que eu precisava dela. Porque eu me punia? Que redenção era essa de que eu tanto precisava? O que foi que eu fiz?

Eu não sei. Não fui eu que deixei o mundo uma merda. Eu estou tentando concertar a coisa. Eu não sou a vilã da história.

Então resolvi deixar essa culpa pelo caminho e seguir mais leve.
É dificil.
Uma vida de hábito.

Mas eu vou tentar.
Seguindo mas leve.

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