17 de dezembro de 2012

O dia em que fui abusada

Nota para as pessoas que gostam de dizer que feministas veem abuso em tudo e procuram pelo em ovo e coisa e tal: Pare de dizer aos outros como eles devem se sentir! Quando você for a vítima, você terá direito a uma opinião. Se você nunca foi a vítima, escute o que aquelxs que já sofreram tem a dizer, ao invés de usar sua imaginação.

"Abuso" é uma palavra forte. Tem que ser uma palavra forte. As pessoas tem que se lembrar que nunca está tudo bem fazer algo a alguém que este alguém não tenha explicitamente autorizado antes. Nunca presuma nada. Pergunte. Não importa o que.

Uns dias atrás eu estava sentada conversando com uma colega minha, G, pouco antes da aula começar. O resto dos nossos colegas estavam voltando para dentro da sala, lentamente, após o intervalo. De repente, alguém atras de mim cobriu meus olhos com as mãos. Eu primeiro pensei que fosse um amigo meu. Então a pessoa foi, apertou meu peito direito, e me soltou. Simples assim. Rápido assim. Num instante estava tudo bem, e de repente não estava. 

O "autor" da coisa foi um sujeito que estuda comigo, e com quem eu tenho algum contato. Nós chegamos a ser amigos no começo do ano, mas nos últimos tempos, eu estava tentando criar certa distância dele, porque ele começou a se comportar de forma cada vez mais irritante - jogando provocações no ar quando eu estava perto, mexendo nas minhas coisas, mas nunca, até ali, me ferindo de qualquer outra maneira. Depois de me agredir, ele se afastou, dando risadinhas, até o seu lugar na sala, como uma criança que fez uma travessura. 

Eu me virei pra minha colega G, que também estava rindo, e disse, meio incrédula "ele pegou no meu peito!", e ela disse: "é.", rindo ainda. Eu não imaginei a coisa, não foi só impressão minha. Ele realmente tinha agarrado meu peito, ela tinha visto.

Mas aí a aula começou, e todos se voltaram para a frente. Eu não conseguia parar de olhar de relance na direção do cara a toda hora. Eu comecei a imaginar o que eu faria. Com quem eu deveria falar? Acreditariam em mim? E se eu desse queixa dele, o que aconteceria? Eu comecei a imaginar uma cena em que eu ficaria horas e horas sendo interrogada como uma criminosa, tendo que responder nos mínimos detalhes como acontecera, provar que era verdade o que eu estava falando. Será que a G confirmaria minha história? Antes da aula acabar, ele se levantou e foi embora.

Eu estava com nojo, eu queria tomar um banho, e chorar. Eu estava com medo. Não do agressor em si, mas da situação toda. E se ninguém me desse atenção? E se todo mundo me desse atenção e eu me tornasse daquele dia em diante a garota que foi abusada? Ou pior, a garota que dizia ter sido abusada? Afinal, é padrão na nossa sociedade duvidar das vítimas de assedio sexual. Pelo menos eu estava suficientemente bem resolvida para saber que a culpa não era minha. Eu só posso imaginar como se sentem vítimas que ainda tem esse componente - a culpa que a sociedade lhes ensina - para lidar.

Apesar de tudo, eu decidi que não iria ficar calada. Eu me lembrei de todos os relatos de assédio que já li, e resolvi que eu deveria fazer alguma coisa, nem que fosse para dar o exemplo. Eu não podia ser a vítima calada, envergonhada, escondida. Eu mostraria as pessoas que abuso não pode ficar gratuito. E embora minha solução não envolva policiais, nem queima em praça pública, eu estou feliz que eu tenha feito algo para resistir, algo para lembrar que não fui eu a errada, que eu não tinha nada que me envergonhar.

Por sorte, a professora que estava na sala naquele momento era alguém em quem eu senti que podia confiar para buscar orientação. Quando a aula acabou, eu pedi que a G me esperasse, e fui falar com ela. 

Quando eu contei, eu não fiz rodeios. Eu fui direto ao ponto sem enfeitar nada. E eu não esperava que isso fosse acontecer, mas naquele momento todos os sentimentos que eu estivera controlando pela última hora e meia desabaram em cima de mim. Eu fiquei trêmula, e comecei a chorar. Graças a deus, ela me ouviu sem me julgar, mas me acolhendo, e concordando que o que havia acontecido era um absurdo. E depois de conversarmos, nós decidimos que ela falaria com ele, e tentaria fazer com que ele me pedisse desculpas; se ele não se retratasse, ela mesma me ajudaria a ir adiante com a denuncia e talvez até expulsa-lo da universidade. 

Depois foi a vez de falar com a G. Eu expliquei a ela como eu me sentia, e perguntei se ela confirmaria minha história, caso fosse necessário. Apesar de eu não ter planos imediatos de fazer uma acusação formal contra ele, eu me senti mais segura quando ela concordou.

Depois, eu passei pela minha professora conversando com alguns colegas de sala, e entreouvi que eles estavam conversando sobre alguns acontecimentos de difamação e coisas assim que tinham ocorrido recentemente no grupo da turma, e cuja autoria ninguém poderia provar, apesar de haverem alguns suspeitos. Um deles, não surpreende, era meu agressor. 

Mais tarde, eu estava esperando com alguns colegas o início de uma reunião, e uma amiga me perguntou o porque de eu estar nervosa quando falara com ela mais cedo. Mais tranquilizada, eu contei a ela. A ela e a todo o grupo que estava presente. Disse o nome dele. Não ia ser eu que ia proteger a identidade dele. Naquele momento, eu estava com raiva. 

Naturalmente, as pessoas começaram a me perguntar mais coisas, pedir detalhes, e eu dei. E de repente, me vi tendo que me justificar. "Mas você não fez nada?", "Você deixou ele?", "se fosse comigo eu ia dar um soco" e coisas assim. Como se eu tivesse tido tempo de dar um soco nele nos 3 segundos que o abuso durou. Como se por não ter reagido na hora eu não pudesse me queixar. E eu tentando explicar que "esse cara tem duas vezes minha altura e 3 vezes a largura, nem se eu tivesse podido..." e de repente eu pensei "espera aí, o que eu estou fazendo? Eu não fiz nada errada, eu não tenho que me explicar!". Mas aí a reunião começou, e o assunto ficou pra lá.


E então ele veio se desculpar. E depois me perguntou se estava "tudo bem". Não, não está tudo bem. Não vai ficar tudo bem. Nos não vamos torcer dedos mindinhos e ficar amigos. Esqueça isso. O que eu disse pra ele, é o que eu digo agora:

Nunca vai estar tudo bem apalpar uma pessoa sem autorização dela. Pode ser uma estranha no ônibus, pode ser sua melhor amiga, pode ser quem quer que seja. Se essa pessoa não te autorizou explicitamente a fazer o que quer que seja, então assuma que você não pode fazer aquilo. Não importa o que. Nossos corpos não são propriedade pública. São nossos. E nós temos o direito de dizer quem tem acessos a eles, e quando, e como. E mais uma vez ressaltando: Não me diga como EU devo me sentir com relação ao MEU corpo. 

3 comentários:

Anônimo disse...

Me desculpe mas voce nunca viu uma mulher dar uma apertadinha na bunda de um amigo nao?

Natalia Gruber disse...

Primeiro de tudo, sim, claro que eu já vi muitas mulheres apertarem a bunda de amigos. Pra ser mais honesta, eu já apertei bunda de amigo.

Mas uma mulher, ou um homem, apertar a bunda de um amigo ou amiga, é uma situação completamente diferente da situação que eu vivi. Entre amigos, existe intimidade pra apertar a bunda um do outro. E se não tiver, um amigo pode dizer ao outro pra parar e resolver a questão entre amigos. E um amigo deverá respeitar o que o amigo disso. Isso independe do sexo do amigo.

O cara que apertou meus peitos não era meu amigo. Ele era um sujeito idiota que vivia me provocando, e que não tinha nenhuma intimidade comigo. Vê a diferença?


Agora, se você quer com seu argumento mostrar que mulheres também abusam, bom, é claro. Babaquice não é característica feminina ou masculina, é característica humana.

Existem casos em que mulheres abusam de homens? Sim, claro. De mulheres que abusam de mulheres? Sim, claro. De homens que abusam de homens? Homens que abusam de mulheres?

Tudo isso existe. Nenhum desses abusos é menos importante que o outro. E, principalmente, nenhum desses abusos JUSTIFICA o outro.

Nathy Calina disse...

Nat, eu SUPER entendo. De verdade. Sinto muito que você tenha passado por isso. O importante é que passou e que não foi nada 'mais sério' e você tá bem agora. Falo isso porque já sofri uma tentativa de estupro e foi terrível e eu não tive a lucidez de achar que a culpa não foi minha e nem de expor o agressor. Depois de uma análise fria eu vi que a culpa não foi minha, óbvio, mas não tive coragem de ir além. Só fico feliz que tenha passado e que nenhuma marca mais séria tenha ficado tanto em mim quanto em você. :) Infelizmente, nem todas as mulheres têm esse futuro e sofrem diariamente as consequências do abuso que sofreram.

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