27 de agosto de 2012

Letras Demais

Meus amigos ultimamente tem me perguntado se eu vou largar a faculdade. Eu acho que eu disse algumas coisas que podem os ter levado a pensar assim. Isso porque eles acham que eu não gostei de Ouro Preto. Até agora ninguém pareceu ter dúvidas de que eu fiquei satisfeita com o curso de letras. E eu fiquei. Mas se fosse tão simples...

Até os meus 14 anos, eu nunca tinha pensado seriamente na minha futura profissão. Então eu resolvi fazer direito. Se eu bem me lembro, foi na época do caso dos Nardoni. Toda hora tinha uma discurso sobre a coisa, uns culpavam a mãe, uns culpavam os Nardoni mesmo, uns culpavam um assassino misterioso que ninguém jamais descobriria quem é, uns culpavam o destino, e todos achavam que a polícia estava fazendo merda. As teorias mais mirabolantes, você também deve ter ouvido algumas. E eu cheguei a conclusão de que falar sobre crimes era muito divertido e empolgante, e que, obviamente, trabalhar com crimes devia ser ótimo. Daí a coisa de fazer direito. Isso e uma secreta convicção de que um advogado conheceria todas as leis que existem, e como existem muitas leis, advogados teriam de ser pessoas muito inteligentes, então era óbvio que aquele era o meu lugar. 

Como você pode observar, não eram exatamente as razões mais sólidas pra decidir uma carreira pro resto da vida. Mas eu não sabia disso, e divulguei prontamente a informação com meus amigos e familiares. Tenho certeza de que meu pai achou ótimo. Não consigo imaginar como ele pode ter levado a sério uma decisão leviana de uma menina de 14 anos. Mas enfim. 

Já no ensino médio, eu fui exposta a outras questões, outras idéias, e percebi que direito não era pra mim. É engraçado que eu tinha um outro amigo que também tinha decidido fazer direito em alguns lugar da adolescência, e cuja decisão também não sobreviveu ao ensino médio. Mas pelo menos eu ainda estou na mesma área. Ele atualmente está cursando física. E é um babaca. 

Mas aí, se não era Direito, era o que? Eu passei bastante tempo em cima dessa questão, mais de dois anos. E eu achava meus professores o máximo. Sim, eu adorava ir à escola, sentava na mesa dos nerds, brigava pra sentar na primeira carteira (certo dia uma amiga "roubou meu lugar" e eu arremessei a amizade (e a carteira dela) pelos ares. Com testemunhas.). E eu gosto de ensinar coisas às pessoas. Uma vez eu ensinei uma menina de 7 anos a procurar palavras no dicionário, e esse momento figura até hoje no meu hall da fama de orgulhos pessoais. Somando esses fatores, eu acabei me decidindo a ser professora. 

Houve um momento de dúvida sobre o que é que eu me colocaria a ensinar. O dilema estava principalmente entre História e Letras, apesar de filosofia ter tentado a sua chance. E eu me decidi por letras no inicio do terceiro ano do ensino médio. E eu mantive essa decisão firmemente até as inscrições para vestibulares, e os vestibulares em si, e mesmo enquanto eu começava o curso, eu não me arrependi. Durante os dois meses e meio de aula que eu tive antes da greve começar, eu não tive nenhuma dúvida de que eu estava no curso certo. Eu gosto do meu curso. Eu gosto da maioria dos meus professores. Porém...

Eu não sei se o ditado é "cabeça vazia, oficina do diabo", mas o sentido é mais ou menos esse. Ou eu vou fingir que é porque ele se encaixa no meu sentimento atual: Eu acho que eu já fiz letras em outra vida. Brincadeira. Mas eu tenho uma sensação de que quase tudo o que eu aprendo é muito, muito familiar. Como se eu estivesse fazendo um curso de aprofundamento. Claro, se eu já não tivesse interesse no assunto, eu não teria me inscrito no curso pra inicio de conversa, mas… Alguma coisa está errada. Eu não quero me aprofundar naquilo que eu já sei, eu quero começar algo novo, algo estimulante, algo sobre o qual eu não tenha tanto conhecimento prévio… E eu teria demorado muito mais tempo pra perceber isso se eu estivesse estudando e cuidando da minha vida, ao invés de ficar em casa mofando e deixando meu cérebro ter idéias. Por isso oficina do diabo. 

Claro, se eu for desistir de letras, quanto mais cedo melhor. Mas existem tantas complicações no tocante a largar o curso… Meus pais, por exemplo, vão ficar loucos. Por mais que meu pai diga que por ele eu posse ser caixa de supermercado que tá tudo bem, enquanto eu for capaz de me virar, eu não sou ingênua a ponto de acreditar nisso. Basta lembrar que ele ficou em choque quando descobriu que eu tinha trocado direito por letras, e francamente, quão confiável minha decisão de cursar direito poderia ter sido aos 14 anos? Então eles vão achar um absurdo que eu abandone uma vaga na faculdade, (como se entrar na faculdade fosse uma missão impossível), vão reclamar de todo o dinheiro que eles já gastaram me mantendo em Ouro Preto por 3 meses, e vão, principalmente, me infernizar com o que é que eu pretendo fazer ao invés de letras. E eu não sei ainda o que eu poderia fazer em substituição. Eu tenho me interessado por áudio-visual,  filosofia, ou publicidade e propaganda. Todos eles são cursos que parecem estimulantes e divertidos, e por uma ou outra razão tem algum apelo pra mim. 

Não que eu pense que faculdade é o único caminho viável pra ter um futuro aprazivel. É só uma das formas de aprender uma profissão. No outro dia eu me deparei com um poster da Idéia Fixa, com o qual eu não posso deixar de concordar:

"O emprego dos seus sonhos não existe, você deve cria-lo".

Eu tenho então refletido sobre qual seria o emprego dos meus sonhos. O que eu gostaria de ser paga pra fazer, no melhor cenário imaginável? E como convencer alguém a me dar dinheiro por isso? O que quer que seja, não acho que exista uma faculdade específica para isso. 

Enfim, todos esses devaneios sobre qual o curso certo pra mim nasceram do meu excessivo tempo livre, e da minha incapacidade de tomar decisões. Se ao menos eu fosse capaz de traçar um caminho, eu poderia segui-lo. Mas até lá, eu fico vagando e me torturando com dúvidas para as quais talvez não existam respostas.

3 comentários:

Nick disse...

O meu curso é bacharelado, moça.

Natalia Gruber disse...

Ops, me confundi, vou arrumar.
:)

Nick disse...

Maldita.

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