12 de março de 2016

Natalia no pais da sabe-se-la-o-que

Eu tinha uns 15 anos, ou algo assim, quando eu disse pra uma amiga próxima que eu gostava de mulher. Não era nem uma questão pra mim. Eu falei, como se não fosse nada, e na verdade não era nada. 

Eu tenho alguma reserva com o que é que a minha família pensa disso, mas internamente, aqui na minha cabeça, não é nada. Gostar de homem, de mulher, e porque não se libertar desse binarismo, não quer dizer nada pra mim. Minha cabeça está tranquila com relação a isso. 

Por outro lado, falar pra qualquer pessoa que eu tenho depressão é ridiculamente difícil.

Eu evito a própria palavra, porque uma parte de mim fica me dizendo que isso não é depressão, é que eu sou mesmo uma pessoa horrível e inútil e é só isso. E eu fico esperando algum diagnóstico, algum profissional me dizer se é depressão mesmo, mesmo que eu já soubesse que é depressão há anos.

Já mais de um profissional me disse que eu tenho depressão, e uma parte de mim não acredita. 

Eu disse, praquela mesma amiga que eu disse ser bi, que eu tina depressão.

E se pra falar de sexualidade, não custou nada, pra falar sobre depressão eu tive que estar bêbada.

E ela me disse que já sabia, que ela tinha percebido mesmo antes de eu falar, que dava pra ver. 

Dá pra ver que eu tenho depressão. 

E eu ainda não acredito totalmente. 


Merda.


23 de fevereiro de 2016

um peixe

Eu tenho alimentado o peixe há alguns meses.

Ele nao come muito. 

O habito dele é vir correndo (nadando) até a superfície e comer os flocos de ração de peixe que eu jogo na água. Ração de peixe é uma coisa meio engraçada. 

Sempre acho que estou pondo ração demais pra um peixe só. Mas eu não faço ideia, na verdade, de quanto um peixe precisa comer. 

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ele nem sempre foi um peixe solitário. Ele fazia parte de um bando. uma gangue. um cardume. 
mas o resto do cardume morreu. 

não sei, também, quando isso aconteceu. quando voltei pra casa um dia, ele estava sozinho. nadando. sem expressão. 

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o problema dos peixes é que eles não são muito expressivos mesmo na melhor das situações. não sabemos quando eles querem dizer alguma coisa.

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acho que quando eu não estou em casa, o peixe não come quase nada, porque o pote de ração sempre está exatamente onde eu o deixei. ninguém mexeu. ninguém tirou do lugar.

eu sempre deixo o pote na mesma posição, pra que eu possa saber se alguém moveu o pote. a poeira se acumula consistentemente em torno dele. 

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ele é um sobrevivente. ele passou por meses, anos até, de negligencia. os outros peixes sempre morrem, e um paulistinha sempre sobra, solitário, dando voltas sem rumo dentro do aquário. o que será que ele pensa?

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eu estou contando essa história na verdade porque o fato é que o peixe morreu. 

eu continuo o alimentando, contudo.

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ração de peixe é engraçada. parece uma especie de confete, infinitos flocos fininhos, fininhos mais que folhas, mais que papel. como é que eles produzem isso?

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quer dizer, não podemos ter certeza que o peixe está morto. o fato de ele não aparecer mais pode significar outras coisas. talvez ele esteja visitando algum parente, ou num retiro espiritual.

talvez ele esteja deprimido. talvez ele não tenha mais motivação pra sair de debaixo de uma pedra qualquer no fundo do aquário. 

talvez ele tenha entrado numa greve de fome, até os seus irmãos deixarem de ser assassinados no pantanal.

talvez seja a piracema.

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a comida de peixe flutua pelo aquário, intocada, sendo movida pelas ondas causadas pelo filtro de ar.

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quer dizer, o peixe estava passando fome. estava sendo completamente negligenciado. então eu comecei a alimenta-lo regularmente. eu salvei esse peixe. por que foi que ele resolveu morrer justo agora? porque ele me deixou cuidar dele, antes de morrer?

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quando peixes morrem, suas pequenas carcaçinhas sobem para a superficie do aquario, e entao nos as recolhemos com pequenas redinhas e jogamos fora. 

não achei nenhum cadáver flutuando no aquário.

mais evidencia de que ele deve estar por ai, talvez viciado num novo videogame ou sei lá. 

talvez eu devesse contratar um detetive particular.

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é uma ingratidão me deixar agora que eu estava habituada a sua presença. sera a minha companhia tao repulsiva que ele apenas não conseguiu pensar num jeito de me dispensar gentilmente? foi alguma coisa que eu disse?

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não posso deixar de alimentar o peixe.

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talvez ele só precise de um tempo. pra esfriar a cabeça


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esse peixe viu todos os seus amigos morrerem. os outros peixes talvez ainda nadassem ali, pequenos fantasmas do passado. 

dia apos dia, nadando, sem ter o que fazer pra ocupar a cabeça.

se algum peixe já teve motivos para sofrer de transtorno-de-stress-pós-traumático.

o que será que ele diria, se pudesse falar?

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vou continuar jogando comida, por via das dúvidas.

4 de janeiro de 2016

quanto mais línguas melhor

É o que um professor meu costumava falar de tempos em tempos, o que estava escrito no cartaz que ele colocava pelos quadros de avisos da faculdade, informando os horários das aulas de grego e latim. Primeiro eu achava engraçado, depois indiferente, e agora saudades. Só que saudades não chega a ser a palavra certa. 

É quase uma inveja do passado recente, quase ontem, mas que também é de muitos anos atrás, porque em parte eu vinha vivendo esse ano como se fosse um outro, um ano em que tudo começou bem e depois desandou sem motivo aparente, e me deixou perdida por meses demais, até eu nem saber onde recomeçar, onde foi que deu errado. 

Eu nunca cheguei a realmente recuperar nada, porque não se pode nunca recuperar tempo perdido, essa é uma expressão idiota. O tempo se foi, e mesmo que algum dia os anos nos quais me perdi não importarem mais, a lembrança sempre vai permanecer. 

Então eu tentei retomar a vida do último ponto em que as coisas estiveram boas, com medo, o tempo todo, de aquilo que deu errado antes desse de novo. Com medo de não conseguir me apegar, de não conseguir me encontrar, de continuar à deriva. Medo de a deriva ser parte permanente de mim.

Uma das coisas que me manteve no caminho, que me serviu de salva vidas e de bussola, um cais para amarrar o barquinho (estou piegas porque são 6 da manhã), foram as aulas de latim. Antigamente, esse mesmo professor que me deu latim agora me deu aula de grego. Não sei se eu era particularmente competente, porque naquela época eu sempre me achava competente, e agora sempre me acho incompetente, então não sei qual o melhor padrão para comparar, mas mesmo com todo um alfabeto para aprender e o medo de pronunciar tudo errado, eu adorava estudar grego. 

Eu não tinha nenhuma intenção em particular de fazer nada com o que eu estava aprendendo, eu nem sabia se dava para fazer qualquer coisa com aquilo, mas aquelas aulas eram quase relaxantes. Quando frequentar a faculdade começou a se tornar mais e mais difícil, grego foi a última a ser abandonada, e a única que eu me senti realmente mal mesmo anos depois. 

Nesse ano não tinha nenhuma turma iniciando grego, e eu não tinha certeza se ia gostar de latim como tinha gostado de grego, mas o cartaz estava lá, quanto mais liguas melhor, e eu me matriculei. 

Eu não posso explicar, e acredite, eu tentei, mas ficar repetindo listas de palavras infinitamente e não aprendendo elas direito (estou falando com você, terceira declinação) é uma das coisas mais calmantes que eu descobri esse ano. Eu ainda me pego rabiscando meu nome (e o nome de todo mundo, na verdade) como se fosse um substantivo latino qualquer. Natalia, Nataliam, Nataliae...

Incerta com o rumo da minha vida, o que mais me faz falta são as aulas de linguas clássicas, e eu imagino que elas estão acontecendo neste momento, sem mim, e quero voltar correndo. Tenho minhas apostilas, tenho meus cadernos, mas era lá que eu queria estar. Errando várias palavras, rindo, e imaginando se meu professor também percebe que eu tenho algum dano cerebral. 

Isso que era vida.

2 de janeiro de 2016

Batom e Piriguetes

Eu e minha família celebramos a entrada do novo ano com amigos e amigos de amigos na casa de uma amiga nossa. Pessoas conhecidas, pessoas mais ou conhecidas e pessoas completamente estranhas reunidas por um ele comum, etc.

Uma das famílias presentes que já conhecemos à algum tempo, apesar de sem proximidade, era composta por Mãe, Pai, FilhoMaisVelho, FilhoMaisNovo e FilhinhaCaçula. A Mãe elogiou meu batom roxo escuro, eu emprestei para ela, e ela passou também. Mais uma interação social bem sucedida.

Daqui a pouco a FilhinhaCaçula vem brincar no colo da Mãe, e fica meio encantada com o batom. Ela tem quatro anos de idade. A Mãe aponta pra mim, e eu venho de onde estava antes pra brincar um pouco com a menina. Pergunto se ela quer passar também. Tenho um pouco de receio, em seguida, mas a Mãe não demonstra a menor oposição, então passo o batom na menininha. Agora somos três mulheres de roxo. Ela fica super feliz e eu levo ela pra se olhar no espelho. Fazemos umas caras e bocas e eu levo ela de volta pra mãe dela.

No caminho, um cara que eu não conhecia, mas conhecia a FilhinhaCaçula e família, brincou com ela, falou do batom e chamou ela "mini-piriguete".

...

Ela é ainda muito novinha para entender ou sequer registrar o que isso significa, que usar maquiagem vai fazer com que ela seja julgada e constrangida e acusada de promiscuidade. Porque ela tem quatro anos. Quatro anos, e já tem gente chamando de piriguete. Ela é muito nova para saber que ela vai continuar ouvindo esse tipo de coisa pelo resto da vida, muito nova para entender.

Ela deveria ser protegida. Alguém deveria dizer pra esse babaca pra enfiar a opinião dele no cu, mas ninguém disse nada disso. Ninguém prestou atenção, e quando eu a levei de volta pra mãe, eu também não disse nada. 

Depois de um ano que teve #primeiroassedio e #meuamigosecreto não há nada realmente novo nessa história. Todas lemos sobre coisas piores, muitas passamos por coisas piores, mas ainda é revoltante para mim que isso aconteça de maneira tão casual.

A cara da promiscuidade - uma menininha de batom, rindo. Eu estou tão cansada de ver esse tipo de coisa, eu já não sei o que dizer. Parece que não importa quanta manifestação, quanto protesto, projeto de lei, textão de feminista chata, nada consegue permear certas pessoas. Eu sei que não podemos desistir, que devemos acreditar e continuar tentando, lutando contra nossa Sociedade Machista™, e não desanimar jamais, mas oh, como cansa.

Um feliz ano novo e menos preconceitos velhos, por favor.

2 de outubro de 2014

Dia Internacional da Visibilidade Bissexual.

Fiquei sabendo tardiamente que dia 23/09 foi o dia internacional da visibilidade bissexual. Isso porque eu deixo meus feeds se acumularem até ter pilhas e pilhas de textos vagamente organizados caindo metaforicamente na minha cabeça, mas eu divago.

O Blog Bi-Sides organizou uma blogagem coletiva sobre o tema, e você pode ver outras participações aqui.

A primeira coisa que me bateu quando alguns textos apareceram no meu feedly foi "pra que diabos precisamos de visibilidade bissexual?" e eu quase ocultei sem ler. Mas num segundo pensamento, lembrei que talvez eu simplesmente não estivesse suficientemente inteirada do assunto pra entender de cara. Então dei uma olhada em alguns desses textos.

Acho válido mencionar que foi quando eu tinha 15 anos que eu comecei a me identificar como bissexual. Eu contei pra algumas amigas e elas ficaram aparentemente surpresas, mas sem nenhum drama. E não foi necessário explicar nada, porque eu tinha amigas legais assim (beijo Nicole!).
Mas não muito depois, eu comecei a implicar um pouco com as limitações do termo "bi". Apesar de eu não ter grandes conhecimentos sobre pessoas trans e não-binarias, eu entendia o suficiente pra saber que o mundo não se divide entre Homens e Mulheres. Então passei a pensar mais em panssexual do que bissexual.

O motivo de eu a principio não ter grande interesse nessa blogagem coletiva é que eu, bi ou pan, nunca me senti pessoalmente vítima de preconceitos específicos a esses grupos. Mas, estamos sempre aprendendo, e eu aprendi que existem sim problemas particulares das pessoas bissexuais.
Por um lado, muitas pessoas simplesmente não acreditam que existam bissexuais. Como unicórnios. Ou bacon demais. E essas pessoas que nos relegam ao universo da fantasia ficam constantemente questionando bissexuais como que se quisessem nos "desmascarar" e descobrir que somos realmente héteros, ou gays, dependendo da ocasião. Existe uma constante exigência de pessoas bissexuais "provarem" que são de fato bissexuais. 
Há também diversos esteriótipos de que mulheres bissexuais são todas "vadias" que jamais conseguiram fazer parte de um relacionamento. Que os homens bissexuais são gays que não conseguem se assumir. Em um grupo de lésbicas no facebook vi  diversas mulheres gays que odeiam mulheres bissexuais simplesmente pelo fato de serem... bissexuais. Parece familiar?

E eu... eu não costumo falar muito da minha própria sexualidade, primeiro porque não é um tópico aberto a discussões, e segundo, porque eu sei que existem pessoas que vão dar trabalho se eu falar. Não é nenhum segredo. Como eu disse, meus amigos sabem, as pessoas com quem eu moro sabem, e qualquer um que perguntar vai receber a verdade. Mas eu não posso negar que eu nunca voluntariei essa informação para a maior parte da minha família. Bom, esse blog é público, rs. Minha avó já leu. Não deveria ser um problema, porque minha irmã mais velha já está quase uns 3 anos casada com a minha cunhada maravilhosa, mas eu seria hipócrita se dissesse que não me sinto apreensiva com a questão. Meus pais não são mais homofóbicos do que a média, mas a média é homofóbica o suficiente. 

Então talves eu só não me sinta vítima de preconceito porque não dou minha cara a tapa o suficiente. Ou talvez a parte que me cabe é o medo de ser mais aberta sobre quem eu sou.

15 de setembro de 2014

Depression Quest

Eu estava lendo um post no meu feed hoje e me deparei com uma menção a um "jogo" chamado "Depression Quest". Eu nunca ouvira falar dele, então fui pesquisar na internet, já imaginando se meu computador teria capacidade de suportar um jogo. Felizmente não era esse tipo de coisa. 

Depression Quest é mais uma "história interativa" do que um jogo, na verdade. O objetivo dos criadores, segundo eles mesmos, era mostrar para pessoas não deprimidas como era viver com depressão, e mostrar para pessoas deprimidas que elas não estão sozinhas. Ao clicar em begin (não precisa baixar nada), a página te mostrar qual a sua história no jogo, e te dá algumas escolhas para lidar com cada situação que aparece. 


Basicamente, você é uma pessoa que tem um emprego não ideal, mas que paga as contas, tem alguns amigos próximos e uma namorada chamada Alex. E depressão. 

A depressão se mostra na hora em que você tem que fazer decisões. Por exemplo, quando seus amigos te convidam pra ir a um bar, você tem opções como "Aceita o convite entusiasticamente", "Aceita a contragosto" e "Recusa. Você não se sentiria confortável e tem certeza que apenas chatearia seus amigos". Mas a primeira opção está bloqueada. Porque uma pessoas deprimida simplesmente não tem a opção de se sentir daquela maneira. 

De cena em cena, o jogo vai te guiando para situações em que você pode optar por se abrir com seus amigos e familiares, procurar ajuda profissional ou medicação. Conforme você responde cada uma dessas questões você pode também acompanhar um "status" que descreve como está a sua depressão, a sua situação com a terapeuta e com os medicamentos. 

Eu tentei jogar da forma mais realista possível, imaginando como eu me sentiria em cada uma das situações descritas e pensando em como eu já agi em situações semelhantes que aconteceram na minha vida. E percebi que apesar de eu de modo geral não ter grandes problemas com a idéia de procurar ajuda profissional, falar com meus entes queridos é outra situação. No final do jogo eu consegui inclusive fazer a Alex me largar por falta de comunicação. 

O jogo é curto e pode ser tranquilamente jogado em uma hora, pelos meus cálculos. Ao final, você chega a um ponto onde ele descreve mais ou menos qual a sua situação. Não existe exatamente uma vitória ou derrota, mas eu me senti exatamente assim: Derrotada. O final da minha história não era de modo algum promissor ou otimista, já que a minha falta de comunicação meio que acabou com meus relacionamentos e eu fiquei sozinha e mais deprimida. 

Então, só pra saber como as coisas poderiam ter sido deferentes, eu comecei outra vez. E dessa vez, ignorando o que eu teria realmente feito, eu procurei escolher sempre as opções mais saudáveis possíveis. Me forçando a aceitar convites, conversar com pessoas, trabalhar em projetos pessoais, ir na terapia. Mas no começo era difícil, Porque o meu personagem deprimido as vezes simplesmente não tinha as opções positivas desbloqueadas. Acho que esse é talvez o toque mais genial do jogo. As opções bloqueadas de "sair e se divertir", "conversar sobre seus sentimentos" e fazer o que quer que seja sem preocupação. Mostra que a depressão é um teste em que você tem que escolher não a melhor opção, mas sim a menos pior. Eu espero que as pessoas não deprimidas entendam isso, porque é fundamental para entender a depressão como um todo.



Com o passar do tempo, entretanto, os cenários começaram a ficar menos negros e eu notei que conforme algumas cenas se repetiam, eu tinha mais opções disponíveis. Como que pra mostrar que quanto mais deprimido você está, menos escolhas você tem pra sair da depressão. Eu uma cena de crise em que na primeira vez que eu joguei, eu só tinhas as opções "beber sozinho", "sair de casa sozinho" e "brincar com o gato", na segunda eu também podia escolher entre "ligar para o meu irmão" ou "ligar pra namorada". E dessa vez ela não terminou comigo.

A minha cena final dessa vez foi completamente diferente da primeira. Agora eu e Alex íamos morar juntos, eu estava procurando por um emprego, e meu relacionamento com a família e amigos estava cada vez melhor. Apesar de ainda haver dias ruins, eles eram mais raros agora.

Mas mesmo jogando com a atitude mais positiva possível, em nenhum momento do jogo a depressão "simplesmente desapareceu". Continuam havendo momentos difíceis e nunca foi possível desbloquear todas as opções possíveis. Porque o tratamento não é mágico.

Eu acho que foi muito bom jogar o jogo duas vezes, mesmo que a segunda não seja nada realista, porque me mostra que poderia ser. Mostra que há luz no fim do túnel e que as coisas não precisam acabar mal.

E isso na minha cabeça soa muito positivo.

Você pode jogar de graça ou pagar o que quiser AQUI. Parte do dinheiro arrecadado será doado para um programa de prevenção de suicídios. 

9 de julho de 2014

Diário das Noites em Claro

Não consigo dormir.

Todas as noites eu me deito, abraço meu travesseiro, fecho os olhos e rezo pra que essa vez seja um pouquinho mais fácil. Que hoje eu consiga apagar. Mas uma parte de mim sabe que não será diferente de ontem. Anti-ontem. Antes.

Eu sei que se eu ficar pensando demais vai ser mais difícil. Mas quanto mais eu tento não pensar, mais eu penso. Então eu tento pelo menos não pensar em coisas ruins.

E penso em tudo o que aconteceu hoje. E no que aconteceu ontem. E no que aconteceu nos últimos 2 anos, e como tudo aconteceu de um jeito que não era o que eu queria.  E revivo todos os momentos em que eu queria ter agido diferente, e dito alguma coisa, e feito algo que mudasse o rumo das coisas. Penso em todas as pessoas de quem eu queria ser um pouquinho mais próxima, mas que eu não fui capaz porque no fundo eu não acho que eu mereço essa proximidade.

Então eu lembro por que eu acho que eu não mereço a amizade das pessoas que eu gosto e pedaços da minha infância começam a emergir nubladamente na minha cabeça. 
Então eu choro.
Então eu tenho que mudar de posição porque o travesseiro molhado começa a ficar frio.
E daí eu ouço os sinos da igreja tocar e sei que são 5h da manhã.

E eu me desespero porque eu tenho aula daí duas horas.

Eu não vou a aula. Eu não ouço meu despertador. Quando a luz do dia fica muito clara, eu desperto e me sinto culpada. Então eu fecho meus olhos e fico onde estou, vivendo os sonhos que eu não vou me lembrar. As vezes eu me levando as 15h. As vezes as 17h. Quando minha mãe me manda um whatsapp.  

Eu pergunto à Ana como ela faz para dormir. Ela me diz pra tomar um chá. Eu tomo e me deito. E não durmo. Ela diz para ler um livro. Eu leio. E não durmo. Na verdade ela não faz nada para dormir. Ela dorme. E eu imagino o que é que as pessoas que não dormem fazem para dormir. Eu pesquiso na internet. A internet me manda tomar um chá. 

Eu resolvi comprar uma cartela de dramin - é muito cedo pra arrumar um tarja preta, não é? - porque desde muito tempo ouço tantos amigos falando que dramin da sono. Que quando vão viajar, é só tomar um, que dormem a viagem inteira. Até minha irmã me disse uma vez pra tomar um dramin e acabar de uma vez com isso. Então fui na farmácia me sentindo uma viciada e comprei uma cartela com 10 comprimidos de 100 miligramas. 

Na sexta tomei uma, por volta da meia noite, e esperei. Acho que dormi pouco depois das duas. Funcionou? Eu só me levantei as 17h no sábado. Não tinha nada para fazer mesmo. Tomei outra de sábado pra domingo, e não sei quanto tempo demorei para dormir. Tenho a impressão que o dramin deixa a memoria um pouco menos clara. No domingo eu fui dormir na casa da minha irmã. Antigamente eu dormi muito mais facilmente lá do que na minha própria casa. Mas não mais. Não consegui dormir até as 7h da manha, quando saí da cama e tomei 2 comprimidos. 

Eu dormi. Eu tenho uma memória vaga de acordar no meio da manhã sem conseguir fazer meus pés pararem de balançar, e não conseguir raciocinar que isso não fazia sentido. Isso é um efeito comum de dramin? Minhã irmã chegou em casa meio dia e fez almoço. Eu levantei pra comer, e depois do almoço nos fomos tirar um cochilo. Matei a aula da tarde. Fiquei dormindo até as 19h, e então fui para a aula da noite.

Não quis tomar dois comprimidos de novo nessa noite por causa daquela sensação estranha que tive de manhã, então tomei um e fui pra cama. Não lembro quando dormi. Pelo menos isso o remédio dá: No dia seguinte nunca lembro quanto tempo demorou pra dormir. Acordei as 17h. 

Fui pro centro assistir o jogo. Comi uma coxinha. Voltei, tomei banho, tomei um comprimido, e fui tentar dormir. Mas hoje não funcionou. Sei lá. Lá pelas 4h, eu desisti de dormir pra não matar a aula de hoje, já que semana que vem tem uma prova e tal. 

Bom dia
 
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